ocupa-madalena Publicado em 9 de junho de 2017

TEATRO DAS OPRIMIDAS

2.1 O que é?

O-yá – ela rasgou – expressão iorubana que nomeia uma de suas deusas, guerreira astuta, mulher dos mercados, que correu mundos na África – no Brasil, ela é mais comumente chamada de Iansã, ou Santa Bárbara, no sincretismo. Em nosso país as mulheres também andam rasgando véus e correndo mercados, vendendo peixes, frutas, roupas e ações na bolsa, de Norte a Sul, multiplicando-se em números do IBGE, ganhando e perdendo espaços, subindo nos palcos, despindo-se nos outdoors, olhando-se nos espelhos. Os espelhos estão por todas as partes, e muitas críticas feministas irão nos lembrar o quanto esse espelho se tornou mais um símbolo da opressão, da escravidão da beleza, e estamos de acordo com elas, ainda que digamos “não paremos por aqui” e investiguemos o que é que tantos espelhos podem nos trazer para preciosa reflexão.

O Teatro das Oprimidas quiçá seja esse espelho assustador que nos mostra o que não se quer ver, o que é tabu, o que há de mais irracional em nossas ações cotidianas, o que carregamos enquanto oprimidos e também enquanto opressores, assim como a noção de que estamos em movimento em um palco cruelmente real, que é a própria Vida. Esse é um dos mais admiráveis papéis da arte – criar máscaras para fazê-las despedaçarem-se diante dos olhos de quem vê, estranhar o cotidiano, criticar a normalidade, subverter a ordem. É claro que esse Teatro Moderno tal como o conhecemos é um produto de nossos tempos, e como outros produtos culturais capitalistas, está também sujeito a estreitar-se em um papel alienante, de puro entretenimento e distração burguesas, instrumento de continuidade e exaltação da sociedade do espetáculo. Muitos estão satisfeitos com esse papel limitado que foi restringido ao teatro nas sociedades “modernas”, mas para todos os outros que nem mesmo a esses limitados espetáculos podem ter acesso, porque afinal custam dinheiro e não raro muito dinheiro, para todos esses outros podemos oferecer a seguinte idéia:

(…) o teatro é uma arma. Uma arma muito eficiente. Por isso, é necessário lutar por ele. As classes dominantes permanentemente tentam apropriar-se do teatro e utilizá-lo como instrumento de dominação. Ao fazê-lo, modificam o próprio conceito do que seja “teatro”. Mas o teatro pode igualmente ser uma arma de liberação. Para isso é necessário criar as formas teatrais correspondentes. É necessário transformar. (BOAL, 1991, p. 13)

       

Para pensarmos no papel político do teatro, temos que entender que seu aspecto político não está somente no conteúdo, senão que na forma como esse conteúdo é tratado. Tratar de clichês políticos em sua exaustiva repetição – isso os nossos telejornais fazem o tempo todo – não torna o teatro, político. O teatro político está interessado na forma como os diversos conteúdos são expressos – aliás, mais especificamente, na ruptura com as formas tradicionais. Dessa forma, o Teatro das Oprimidas está preocupado principalmente em romper uma estrutura básica: a separação entre atores e seu público, os espectadores – está interessado na formação de espect-atores, para utilizarmos a expressão cunhada por Boal, ou seja, espectadores que rompam com a lógica catarse-repouso e entrem no plano da ação – uma espécie de ensaio para a revolução.

O Teatro das Oprimidas nasce, portanto, da necessidade de um projeto político de libertação consistente, insistente, inquietante, que possa inspirar as mulheres a se construírem enquanto seres andantes, pensantes e amantes, sentirem-se responsáveis pelo fim de todas as formas de opressão, de um projeto libertador do humano que não se restrinja à humanidade tal como criada e construída pela história, onde somente os homens fazem e desfazem seus destinos – um projeto que reivindique sua própria voz, simplesmente porque sem essa voz, não há um projeto real de libertação pelo qual lutar. Não queremos nos limitar discutindo as grandezas e miudezas das opressões perpetradas contra as mulheres, mas insistir na importância de se trocar a expressão passiva tal qual “deixemos de sermos oprimidas” por “façamos nossa libertação”. A nossa ideia é de que precisamos descobrir o que é o “feminino-livre” – e para tanto é que investiremos em ferramentas mais lúdicas, tal como o teatro, mas que não abandonem o político, tal como o Teatro do Oprimido.

 

Segundo Alessandra Vannucci:

“Sim, era uma vez uma cidade em que tribunal, palanque, parlamento, cátedra e mesmo um palco de teatro não eram lugar de mulher. Uma vez, mulheres que praticassem em público alguma arte como dançar, cantar, tocar flauta ou dizer poemas podiam ser julgadas “mulheres públicas”, algo próximo de prostitutas. Uma mulher que praticasse artes mágicas, tivesse visões místicas ou dominasse a medicina natural, de certo era bruxa; lugar dela, a fogueira. Hoje, porém, há mulheres médico e mulheres professoras, juízas, diretoras de cinema, mecânicas e presidentas: mulheres que conquistaram um lugar no espaço público.

 

Na estrutura da sociedade ocidental, dualismos como eu/outro, mente/corpo, cultura/natureza, macho/fêmea, civilizado/primitivo são fundadores de uma dialética de dominação em que o elemento dominador é tal, somente enquanto espelho do dominado e vice-versa.

 

Permanentemente expostas ao olhar alheio, as mulheres hoje são obrigadas a fazer constante experiência da disparidade entre seu corpo real e o corpo ideal, propagado pelo espelho universal da mídia. Assim, a máxima exposição-emancipação do corpo feminino convive com sua máxima exploração-alienação. A choque entre hábitos ancestrais de submissão e imperativos urgentes de emancipação provoca certa irrequieta insatisfação com os papéis de sempre. Queremos mesmo ser Cinderelas, Brancas de Neve, Belas Adormecidas beijadas pelo príncipe azul? Chega de Barbie, já basta de Sherazade!  E será mesmo que, se a mulher não for santa, será a bruxa, a vagabunda, escandalosa, culpada, humilhada, apedrejada, ajoelhada? Quem disse que se não for Maria, será Madalena?”

 

Portanto, o Teatro das Oprimidas atualmente pergunta-se como esses diferentes contextos sociais agem sobre os corpos femininos, como eles podem atuar criando as barreiras que continuam segregando mulheres, continuam alimentando a hostilidade entre nós. Mas além de desejarmos investigar as opressões, também estamos interessadas sobre o que pode nos unir, como nos é possível reivindicar uma ancestralidade feminina ao encararmos um espelho imaginário onde nos perguntamos de onde viemos e o que é que trouxemos de bagagem das mulheres que vieram antes de nós. Não nos limitamos à discursividade, vamos adiante, buscando o que essas mulheres não podem ver e nem mesmo objetivar, vamos atrás do que é subjetivo, rebelde, subversivo, doloroso, emudecedor. Uma travessia de mãos dadas em busca da construção desse sentimento solidário que é a sororidade, travessia que perpassa tanto as mais profundas e obscuras experiências individuais, quanto os debates políticos acerca do tema – o que fazemos atualmente e o que é que poderemos fazer para transformar a sociedade que nos oprime?