filmes Publicado em 1 de fevereiro de 2017

Longe do paraíso, um ponto de vista

*Feminista, co-fundadora do Grupo Transas do Corpo. Doutoranda em Ciências Sociais pela UNICAMP, SP.onge do Paraíso (Far From Heaven) é um filme que fala através de olhares, gestos bem cuidados, palavras e vozes contidas, nuances de luz e contrastes profundos que o diretor parece realçar para dar ainda mais ênfase às tensões que mesclam ou intersectam perspectivas de gênero, raça e sexualidade na atmosfera cultural e política dos anos 50, em Connecticut, nos Estados Unidos.

Juliane Moore (em excelente desempenho) é Cathy Whitaker, uma perfeita dona-de-casa burguesa, linda, a típica “mulher atrás de um homem bem sucedido”. Mrs. Magnatech (uma alusão à companhia do marido) encarna o protótipo da mulher da alta burguesia a quem as colunistas sociais adoram entrevistar, fotografar e exibir como “modelo” para outras senhoras de fino trato. Tudo parece perfeito – as roupas impecáveis, a linda casa com lareira e jardim amplo; dois filhos, um menino e uma menina; o marido. Um casal “correto” e “feliz”.

Bastam apenas alguns minutos de filme para vermos que não é bem assim. Que por trás das paredes de felicidade do casal Whitaker há um mundo de outras tantas “realidades”. A relação de Cathy com seu marido Frank (vivido pelo ator Dennis Quaid), para além dos rígidos papéis femininos e masculinos socialmente aprovados, é atravessada por situações delicadas que envolvem relações extra-conjugais que ele mantém com outros rapazes. Encontros furtivos que ele vive  clandestinamente, sempre cheio de culpa, depois do expediente na empresa.

Quando ela descobre (um dia resolve levar o jantar do marido até o escritório e lá o encontra beijando outro homem) propõe a Frank um tratamento médico. É claro que ela sofre. Mas ama Frank e acha que é possível que “aquilo” seja superado. Estamos diante da perspectiva médico-psiquiátrica da época que tratava tais casos com psicoterapia e até mesmo eletrochoques. Terapias cujas chances de “cura”, diz o médico, são poucas, nada mais que 30%.

A conversa com o médico é um momento interessante no drama, afinal estão lá os dois, marido e mulher, buscando salvar o casamento. Vale lembrar que a metade do século vivia o apogeu do culto à ciência e a alternativa para “tratar” a homossexualidade, escolhida pelo autor, não poderia ser outra. A noção de uma homossexualidade inata (daí as
baixas chances de “cura”) ganhava adeptos na primeira metade do século XX. Felizmente, a narrativa desafia pressupostos teóricos dominantes e nos brinda com aquilo que realmente conta: o amor e as relações – nada fáceis – entre as pessoas, independentemente de sexo, cor, idade, raça, classe social, orientação erótica, etc.

Uma outra trama envolve a delicada relação de Cathy com o jardineiro negro, Raymond Deagan (interpretado pelo ator Dennis Haysbart). A primeira cena, na qual o vê no jardim, através da janela, enquanto concede entrevista à colunista social, ela se aproxima cautelosa (o que faz um negro desconhecido no jardim de uma senhora branca e rica?) e
fica sabendo que ele é filho do seu jardineiro que falecera.

Raymond é belo, tem voz e olhar penetrantes, é educado, atencioso, e parece experimentar uma liberdade incomum, aos negros naquela sociedade, quando se aproxima de Cathy. Seria precipitado descrever o que brota desse primeiro contato como amizade terna entre uma mulher branca, rica e casada, e um homem negro, de outra classe social e viúvo. Quando ele começa a trabalhar na casa, cumprindo a função que fora do pai, isso favorece certa proximidade entre os dois.

Raymond e Cathy vistos juntos, em qualquer circunstância, fomenta a imaginação preconceituosa da vizinhança e a conseqüente hostilidade e discriminação. Os amigos dizem, em tom de escárnio, que Cathy é “muito delicada” com os negros. Sua gentileza (kindness) com o rapaz rende-lhe a ira do marido, a incompreensão e o repúdio das amigas e vizinhos. Apenas a empregada, também negra, pode estabelecer com ela certa cumplicidade. No ambiente fermentado pelas fofocas, Frank não retribui nem a compreensão, nem a solidariedade dela para com ele em sua experiência “fora da norma”.

Frank, afinal, não é “curado” de sua homossexualidade. Durante o Ano Novo com Cathy, em Miami, apaixona-se por um jovem. Numa cena tocante revela a Cathy que tentou, lutou, mas que sucumbiu ao amor; “o primeiro amor de sua vida” diz ele, em prantos. Cathy oferece-lhe o divórcio, resignada. O divórcio, como é comum ainda hoje na vida de muitas mulheres, lança Cathy numa outra realidade. Ao divorciar-se, encontra-se sozinha, isolada e tendo que lidar com problemas novos do dia-a-dia, como os financeiros, por exemplo. Tem de enfrentá-los e o faz.

Cathy tem amigas que com ela compartilham as trivialidades da vida burguesa. Quando as coisas começam a ficar complicadas na vida do casal, a “melhor” amiga oferece apoio e, mesmo surpresa com a revelação sobre a homossexualidade de Frank, é compreensiva. Entretanto, não pode suportar quando Cathy lhe confessa seus sentimentos
por Raymond. É demais para ela, e o julgamento é feroz.

Operar com um sistema de hierarquização dos preconceitos seria arriscado. Contudo, Longe do Paraíso, permite-nos ver escalas ou gradações de aceitabilidade daquilo que, a seu tempo, cada sociedade qualifica como “fora da norma”. Está claro que entre Frank, Cathy e Raymond existem diferentes tipos de preconceitos matizados pelo gênero, pela
classe social, pela sexualidade e pela raça.

Para algumas pessoas que assistiram ao filme, Cathy é quem fica em situação mais desfavorável. Concordo que quanto ao julgamento, ela sofre mais preconceitos, mas, por outro lado, também experimenta uma “libertação”. Ela afinal de contas, perde o marido, as amigas, mas ganha a vida, pode começar a pensar e sentir por si mesma, a fazer escolhas, ainda que estas signifiquem trilhar por caminhos bem difíceis. Não há uma cena memorável na qual os dois, Cathy e Raymond, brindam juntos ao que há de “único” (uniqueness) na vida?

O que Longe do Paraíso me faz pensar é nas injunções tão inesperadas dos encontros humanos. O súbito, a surpresa, a realidade arrumadinha das aparências que dá origem a sentimentos desordenados e fortes, que agita e faz pulsar. É sobre isso que fala o filme: desejos, amores, preconceitos, fobias, submissões, vidas artificiais, renúncias. “Negros”, “mulheres” e “homossexuais”. Não é uma tríade simbólica onde se misturam todas as fantasias e medos? Um Outro que desestabiliza nosso senso de “identidade” e a quem tememos por estar muito perto, talvez dentro de nós? Um retrato não só dos anos 50, mas uma realidade ainda tão presente nos dias atuais?

FICHA TÉCNICA
Título original: Far From Heaven
País: EUA/França
Ano de Produção: 2002
Diretor: Todd Haynes
Trilha Sonora: Elmer Bernstein
Elenco: Julianne Moore, Dennis Quaid, Dennis
Haysbert, Patricia Clarkson, Viola Davis,
James Rebhorn, Bette Henritze
Roteiro: Todd Haynes
Duração: 107 minutos
Gênero: Drama